terça-feira, 24 de abril de 2018


A garrafa está cheia de café e de pouca paciência
Os trabalhos se acumulam e as ideias se multiplicam
As nuvens de ideias vão surgindo e vou tocando
Às vezes sai uma valsa, outras só barulho
Enquanto isso faz calor  para rimar: penso em amor
Em fazer amor, sem pontos, sem vírgulas, sem pudores
O café me deixa acesso,  como o desejo  e a luta
Intenso,  são também os  dias.

Alexandre Lucas   

segunda-feira, 23 de abril de 2018


Durante a noite posso desaparecer
Como as cartas  que em tempos difíceis nunca chegaram
Deixo algumas cartas, sem endereços ou destinatários   
Escrevi  e fui deixando no caminho, umas mais apressadas
Outras densas e confusas,
Elas estão espalhadas  num mapa rasgado e perdido
as palavras que elas contém vão  se encaixando  com os gestos
e se arranjando num baralho que nem sempre é possível jogar.

Alexandre Lucas


O prazer foi enxotado
Com vassouras de pelos de prego
Estava deitado, ereto e viajante
O prazer estava despido
Com os lábios entre os dentes
E olhos arregalados de gosto
O prazer deitou-se no silêncio
Murcho, vestido e ferido
e adormeceu.

Alexandre Lucas    

domingo, 22 de abril de 2018


A criança falava baixinho
Estou com fome, mãe  
E a mãe achava que era apenas uma frescura
Em tom mais alto a criança repete
Estou com fome, mãe!
E a mãe irritada diz: chega!
Não houve a terceira, a criança se calou  
Morreu de fome.

Alexandre Lucas   


Língua livre
Para discursar  o desejo  
Empunhar a bandeira da  liberdade
Manifestar a rebeldia
Acolher o afeto
Língua para gestar a palavra e temperar o gozo
Que não nos falte a  língua,   no banquete dos afetos
E na procissão pela vida. 

Alexandre Lucas   


Gosto de acordar com o carinho das palavras
Espreguiçado, com um tempo mais lento
Abrindo devagarzinho os olhos para sentir o gosto do dia   
Um café quentinho, uma companhia mesmo que distante
Pulei da rede sem nenhuma palavra,
Não tive tempo de esticar os braços
Nem me ver no espelho
Sair correndo com a xícara na mão
Com  café amargo, de muita água e pouco pó
Esqueci-me de desligar o acelerador
Nem sempre ele anda comigo.

Alexandre Lucas  

Escuto tiros e cachoros latindo
A rua faz barulho
Vejo pela brecha fumaça
Tento sair, não consigo abrir a porta
Estou preso
Fabricando monstros e celas


Alexandre Lucas

sexta-feira, 20 de abril de 2018


Hoje não tem poema
Porque não teve pão
A  correria foi companheira
E o desejo entalado
Todas as desculpas são argamassas
Para misturar palavras
E compor narrativas do duelo da vida  
Que se faz de amor e dor.

Alexandre Lucas  

quinta-feira, 19 de abril de 2018


Compor um poema
Com  sincera-mente
Ele já nasce
Mentirosamente.

Alexandre Lucas  

Pichei a geladeira do teu coração
Só para sentir vida
e catar umas palavras

Alexandre Lucas

sábado, 14 de abril de 2018


Nas noites  das mais variadas luas
Nos dias de sol e cinzento
No calor e no frio
Na correria capital
Na luta contra a subsistência
Além do arroz e feijão
Que não falte
Nós nus  (e vestidos)  
Compactuando pele,  suores  e assaltos afetivos
Tramando um desejo coletivo
composto de fartura e fraternidade.

Alexandre Lucas   

quinta-feira, 12 de abril de 2018


Meu pai tem uma perna
A outra é um pedaço de ferro que se faz perna
Nunca vi a outra perna de carne e osso do  meu pai
Pai tinha duas pernas
E eu nem existia
Mas se hoje pai tivesse duas pernas
E uma apartasse e bolasse no asfalto
Não comeria pipoca
Não sentaria no sofá
E não ficaria curioso para espiar a dor humana.

Alexandre Lucas

sábado, 7 de abril de 2018


Não peçam silêncio
Quando as bombas e os tiros se anunciam
Faz dor e nós gritamos
De tão  alto acordará os vizinhos, a América Latina, o mundo  
Nós nos importamos
Quando a  pimenta arde,
Quando o sangue se faz cachoeira
Quando a pele abre crateras
Quando o medo e o ódio querem se fazer morada
Quando a mentira dita infinitas vezes quer se fazer verdade
As bombas não calam, muito menos dispersam
Os tiros do passado são siameses dos de hoje     

E eles nunca mataram as ideias.

 

 

Alexandre Lucas

Madrugada de 08 de abril de 2018.



Nem BOstas, nem DEMônios , nem TUpelosCANOS  
Nem arrego,  nem desespero
Outros dias estão nascendo  
brotará foice e martelo, estrela  e sol
Canhões de flores,
bandeiras vermelhas, amarelas e brancas serão borboletas nas ruas
As bandeiras brasileiras terão o mastro multicolor do seu povo
Lulas, Manuelas e Boulos serão temperos dos sonhos  que não se prendem
O país  inundará de esperança
Seremos o formigueiro vermelho, mais denso e mais convicto
Espalhados e juntos, caminharemos
Para uma terra sem boi zebu.  

  Alexandre Lucas


Tem dias em que as lágrimas batem por dentro
Sacudindo   o tempo com rajadas de trovões  
Que a chuva da alma nunca fique presa nos céus
Caia chuva
Depois de você (chuva, lágrimas)
Forte broto da terra.

Alexandre Lucas    

terça-feira, 3 de abril de 2018


Em tempos de infláveis e patos amarelos
Verdes olivas batem continência para o atraso
Uma torcida corre com olhos vendados e ouvidos lacrados  
Empunham com a mão direita
Uma tocha, uma balança desmedida e um dicionário de mentiras
Nas escrituras da dor
Desconhecem:
Pau-de-arara
Choque elétrico
Pimentinha
 Afogamento
Cadeira do Dragão
Geladeira
Cobra
Barata
Banho chinês
Injeção de éter
Soro pentotal
Telefone
Sexo anal com cacetete
Fio no pênis e na rosa vagina
Dessaber
Um relatório para a história
Brasil Nunca Mais.

Alexandre Lucas   
   

segunda-feira, 2 de abril de 2018


Fazer pipoca
É juntar milhos,
Colocar para esquentar  
Esperar
Pouco a pouco cada milho  se avessa
Algumas pulam fora
Outras  queimam
A maioria parece ser igual
Apenas parecem
Enquanto faço pipoca
Penso como se esquenta uma ditadura.

Alexandre Lucas  

sábado, 31 de março de 2018


 Verso de língua
É um canto de prazer
Que se faz descascando
Os mistérios  do corpo  
Para ele cantar
Um canto gemido de sabor
Que se faz quente e úmido
Para aquecer os encontros.

Alexandre Lucas 

quinta-feira, 29 de março de 2018

Acabem logo com os direitos humanos
Blasfemam: os de panelas cheias
Nos seus incontáveis holofotes de sedução
Continuam
Não se esqueçam dos bandidos 
Bandido são pretos, pobres
Moram nas favelas, subúrbios e periferias
São perigosos, violentos e assassinos
E acham que tem direito de comer em panela cheia
Acabem com os direitos humanos
Daqueles que tem intermináveis panelas cheias
E ai, os direitos humanos deixaram de ser coisa de bandido.

Alexandre Lucas

domingo, 25 de março de 2018



A esperança  dança no meio do caminho
Como a bandeira rubra
Que junta fabrica de famintos
E cultivadores da terra
É preciso temperar o alimento da revolução
Com mãos e mentes, exploradas e oprimidas
Vamos preparar o banquete
O  gosto do nosso tempero
tem  que ter o sabor da felicidade
de ver o povo dividindo
O  fruto do trabalho socializado.  

Alexandre Lucas  

sábado, 24 de março de 2018



Linda palavra que se abre entre  as pernas
Grandes lábios de beijos colados  
Treta, faceta, buceta
Pecado, só se for calar o desejo
Errado é o silêncio que tranca
Abre
O  teu vale molhado,  quando quiser.

Alexandre Lucas


Nós nos tapamos de olhares  
Enquanto nossas  línguas se esbarram
Fazendo versos em ziguezague
Na esquina ( das tuas curvas)
Faço frevo, bebo do teu sabor
Visto-me de nudez só  para enxergam
Os teus olhos  revirar.

Alexandre Lucas  

terça-feira, 20 de março de 2018





Amo-te sem intervalos filho
Como é sem interrupção a nossa relação
Nunca seremos ex
Mas parte da mesma parte
e cheio de outras partes nos faremos únicos
na medida do agrado e desagrado
fiaremos o bordado da vida
as vezes com linha frouxa, outras apertadas
com simetria ou assimetria
com varias cores
ou branco no branco
 ou  preto no preto
a agulha dos sentimentos vai fiar
podemos furar os dedos
ou confiar que agulha vai apenas bordar
e sem intervalos,
corro  com a pressa necessária para fiar na alma,
 o bordado tecido com as linhas da vida
que carrega a imensidão que nos faz pai e filho
o bordado pode não ser tão visível quantos as palavras
mas com letras garrafais e invisíveis está  adornado: Eu te amo.

Alexandre Lucas    

domingo, 18 de março de 2018


A palavra é finita
Podendo carregar infinitas possibilidades
Um  poema  pode ter mais intenções  que palavras
Pode ser preciso,  
Pode não dizer nada com nada...
Prefiro o poema de muitas ou pouquíssimas palavras
Mas que me afeta!

Alexandre Lucas    




Sou de um partido
Que tentaram partir
Partiram alguns, algumas
Sumiram outros, outras     
As balas atravessaram os corpos
As piranhas devoraram  carnes
Nos porões,  a lucidez foi baldeada  
Entre paletós, batinas e fuzis
A elegância da maldade imperava
Sobre os bons costumes,
Costumes infelizes   
Até tentaram achatar  foices e martelos
Achando que achatariam as ideias
Elas, continuam vivas
Temperando foices e martelos.

Alexandre Lucas    

quinta-feira, 15 de março de 2018


Que as línguas e as bocas
Duelem prazer
Que o gemido seja sinfonia
Dos nossos encontros  
Pausa, tomando fôlego  
Os corpos já não se comandam
Atrelam-se e se atritam
Entram-se e se diluem
 Como peixinhos que encontram  caminhos.

Alexandre Lucas  


Estou menstruado
Sangro Marielles e Pedros, Dinas e Oswaldos, Angelos e Olgas, Heleniras e Pomares
Sangro
As  balas vem dos coturnos
Escutem, eles fazem silêncio
E  se escondem nas sentinelas do poder
Para blasfemar contra os oprimidos
Negros, pobres e faladores  
Negras, pobres e faladoras  
Como cães, as cabeças ocas dos cacetetes   se adestram com vigor a subalternidade   
Que bate continência  ao ódio,
Disseminado pelo opressor
Sangro e se renovo para sangrar
No sangue que se tempera
Do direito negado,
Da fala que se faz primavera
Em tempos quentes e de pouca luz
Sangro com as bandeiras vermelhas
Hasteadas pelos multicolores braços
Dos oprimidos e explorados
A estrada segue
Pois nunca se mata,  o sonho.

Alexandre Lucas   

Nossos risos se brindam
com olhos que se chamam
o verso atravessa a carne
no banquete sirvo-me da alma
e pinto com as cores mais vivas
os desejos mais saltitantes
de sonhar. 



Alexandre Lucas



Quero os chocolates do teu olhar
Logo cedo,
Durante o dia que ele possa derreter com carinho e calor
A noite, ou antes mesmo
Que nos façamos lar, num mar doce e apimentado.


Alexandre Lucas

sexta-feira, 2 de março de 2018

Faz frio
Tirei a roupa e os  pudores
Pronunciei com a língua
Uma  profunda delicadeza
Querendo fazer poemas nos teus olhos
Vestir  roupa quando tudo estava quente.

Alexandre Lucas

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A língua, bendita de todas as palavras
É sempre mal falada
Entre as curvas escrevo poesias
Algumas que só se sente
Como a língua que o corpo bem entende.



Alexandre Lucas

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O tempo nos convoca para bailar
Para transformar suor em esperança  
Balançamos
Como corpos de fitas coloridas
Na dura vida proletária
O amor se faz carne,
Verbo
e infinito desejo de suprimir a fome , a sede e as secas.

Alexandre Lucas   

domingo, 25 de fevereiro de 2018


Um poema composto por olhares e risos
Mãos que se fazem plumas
E uma certeza infinita que é possível galopar na lua
Bolar sobre o sol
E se encher de eternidade
Que o poema da vida tenha essa intensidade
Que seja árvore com frutos de maça  e tenha asas
Para sobrevoar o infinito da imaginação.

Alexandre Lucas